Estudo sobre a personalidade

SAUDE

 

PSICOLOGIA

 

SOCIOLOGIA

 

LINGUISTICA

 

ANTRO-POLOGIA

 

FILOSOFIA

 

PSICO-FISIOLOGIA

 

TEORIA CIENTIFICA

 

HISTORIA

 

Mail do site

 

 

ESTUDO SOBRE A PERSONALIDADE

Índice - Nota: Nem todos os sub capítulos aqui estão enunciados.

0-INTRODUÇÃO

1-OS CONCEITOS DE PERSONALIDADE

2-ESTUDO DA PERSONALIDADE

3-RESUMO HISTÓRICO DO ESTUDO DA PERSONALIDADE

4-MÉTODOS DE ESTUDO DA PERSONALIDADE

5-A FORMAÇÃO DA PERSONALIDADE OU PERSONALIZAÇÃO

6-A APRENDIZAGEM DA CRIANÇA E A PERSONALIDADE

7-INTERPRETAÇÕES TEÓRICAS DA PERSONALIDADE

7.1-TEORIA DE FREUD DO DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE

7.4-UMA INTERPRETAÇÃO HUMANISTA DA PERSONALIDADE

7.5-PERSONALIDADE E VARIÁVEIS ORGANÍSMICAS

8-CONCLUSÃO

9-BIBLIOGRAFIA

 

0-INTRODUÇÃO

É meu objectivo ao longo deste trabalho desenvolver um conjunto de questões sobre a personalidade entendida da forma mais global que me é possível neste espaço fazer.

Muita coisa ficará, certamente, para escrever dado que este tema, sendo um tema rico, é simultaneamente e de certa forma inabarcável, pelo menos no sentido de se poder afirmar uma conclusão única, pronta a utilizar, sobre a personalidade.

Mas que estas palavras não sejam entendidas como uma declaração de impotência minha perante tão grandiosa questão, mas que sejam antes entendidas como uma demarcação clara dos limites onde eu me detenho, e lendo-se os capítulos que se seguem pode chegar-se à conclusão que a outros bem mais qualificados que eu o mesmo problema se deparou.

Na verdade, a personalidade, sendo um factor em construção, é, desde logo, um tema nunca acabado. Por outro lado, a diversidade de interpretações sobre a personalidade demonstra de uma forma que eu entendo ser clara que, embora eu sinta que as teses defendidas estão cada vez mais próximas da clareza, a própria dinâmica do processo da personalização fará sempre com que as mesmas fiquem desactualizadas no momento seguinte àquele em que forem dadas como terminadas.

Assim, a personalidade é, neste trabalho, objecto de uma pesquisa sobre as diversas escolas, métodos, interpretações, teorias e aprendizagens que o próprio homem, no seu todo, foi construindo ao longo dos tempos e que, de uma forma ou de outra, utiliza neste momento. Neste plano, ao tentar desenvolver a diversidade deste conjunto, e embora reconheça conforme já afirmei que muito mais poderia dizer, penso, contudo, que o tema personalidade ficará desenvolvido por mim nas suas diversas variantes mais significativas.

 

1- OS CONCEITOS DE PERSONALIDADE

O conceito de personalidade numa perspectiva mais sociológica que psicológica tem a sua origem na constância que se observa no comportamento do indivíduo durante um período de tempo e numa gama de situações diferentes. Derivando "personalidade" da palavra pessoa é assim legítimo pensar-se que a personalidade possa ser vista de uma forma diferente quer por diversos observadores, ( todos eles dotados da sua personalidade própria ) quer pelos diversos actuantes no seu processo pessoal ( todos eles, também, dotados da sua personalidade própria ), sendo esta analisada durante o tempo e nas mais diversas situações.

Contudo, o termo personalidade designa sobretudo a constante dos comportamentos individuais, ou seja, o conceito de personalidade é uma generalização abstracta de diversos pontos comuns de comportamento encontrados quer num individuo quer num grupo de indivíduos. Por outras palavras, pode dizer-se que o conceito de personalidade se obtém através de uma soma de comportamentos posteriormente reduzidos aquilo que tiverem em comum entre si.

Em termos psicológicos o conceito de personalidade designa, de maneira muito geral, a unidade individual do comportamento e do seu fundamento interno, ou seja, designa a conformidade de um determinado comportamento com o seu fundamento interno, sendo este do foro individual e psicológico de um indivíduo dado. Enquanto que a sociologia se ocupa da manifestação exterior da personalidade, a psicologia interessa-se mais pela relação de personalidade dentro do próprio indivíduo. Não descura, como será evidente, os aspectos em que a mesma se manifesta exteriormente, mas ao fazê-lo pretende antes observar ou analisar a conformidade existente entre aquilo que é a manifestação exterior do comportamento de um dado indivíduo e aquilo que se pensa que esse mesmo indivíduo é, em si, dentro de si.

Por outro lado, ainda, o conceito de personalidade, ao derivar da palavra pessoa, ou seja, ao querer dizer aquilo que uma dada pessoa é, afasta-se por vezes da pessoa por não ter implicações filosóficas de significado. Ou seja, enquanto que a pessoa pode ser analisada de diversas maneiras, não excluindo o seu ser, o seu conteúdo - matéria, a sua existência, a personalidade pressupõe desde logo tudo isto e não tem necessidade de se debruçar sobre estas questões. Ou seja, a personalidade só se analisa porque a pessoa é, tem uma determinada substância e porque existe.

Sem a pessoa como entidade pressuposta não há estudo da personalidade, enquanto que a pessoa pode ser estudada em diversos aspectos que nada, ou pouco, têm a ver com a personalidade, como é o caso da sua conformação biofísica, apesar de todos os pontos de contacto que algumas escolas fizeram neste plano. Na verdade, o aspecto do seu comportamento fisiológico, como apresentamos por exemplo imediatamente atrás, não depende nem é característica para avaliação da personalidade, embora algumas intrusões nesse campo tenham sido feitas por psicólogos que serão referidos à frente e nomeadamente o mais conhecido que é Freud. Desde já gostaria de deixar claro que, no nosso entender, Freud não avalia o comportamento fisiológico do indivíduo em si, antes se serve dele, desse comportamento fisiológico pré-existente, para defender as suas teses. Assim, Freud não estudou a fisiologia humana enquanto tal, a fisiologia da pessoa, mas sim as suas manifestações exteriores, a parte fenoménica, para fundamentar sistemas e relações interiores e exteriores no próprio indivíduo.

Por outro lado, outras teorias defendem que a pessoa deve ser entendida como o ser racional no seu todo, dotado de consciência e de razão, daí que neste casos a análise da personalidade, como manifestação da pessoa, ou como processo interior à pessoa, se não distinga muito do conceito de pessoa em si.

Já no mundo jurídico a situação acaba por ser declaradamente pela aquisição da personalidade ( jurídica ) desde o nascimento até à morte, apresentando-se a personalidade em si como uma coisa feita e baseando-se em critérios que permitam a igualdade de todos os seres humanos. É já dentro da aquisição da personalidade que se processa o desenvolvimento da mesma, ou seja, a personalidade não se constrói simplesmente, segundo estas teorias, reconstrói-se, aperfeiçoa-se, desenvolve-se, através de todo um conjunto de mecanismos que pressupõem e colocam balizas legais protectores da personalidade enquanto não ( ou quando não ) satisfatoriamente formada. Por outro lado alguns direitos da personalidade mantêm-se e transmitem-se após a morte da pessoa ( caso do direito ao bom nome, à imagem, etc.) o que nos afasta irremediavelmente da pessoa e da relação da pessoa com a personalidade. A personalidade é, assim, um património humano, de uma sociedade, e não de uma pessoa em especial e em exclusivo. Por outras palavras poderia dizer-se que se concede personalidade ( um determinado tipo de personalidade ) quando ela ainda não existe e se mantém a personalidade ( um determinado tipo de personalidade ) quando ela deixa de existir.

No aspecto que pretendemos estudar mais detalhadamente neste trabalho é corrente aceitar-se duas definições do conceito de personalidade:

A personalidade como sistema de referência, como totalidade e como conexão global e articulada de todos os processos e estruturas da constituição psíquica individual. Neste sentido, a personalidade define-se, por exemplo, como a "soma total organizada dos padrões reais ou potenciais de comportamentos" ( Eysenck), como "hierarquia dos estratos psíquicos" (Rothacher) ou como "estrutura única e singular de características" (Guilford).

A personalidade como correlação dinâmica, isto é, como sistema de energias internas e determinado pelas valências ambientais e submetido à mudança do tempo. Neste sentido, a personalidade define-se, por exemplo, como um campo estruturado de organismo - meio, dentro do qual cada aspecto se encontra em relação dinâmica com os outros ( Murphy ) ou como " a ordenação dinâmica daqueles sistemas psicofísicos que, no indivíduo, determinam as suas adaptações singulares ao meio ambiente" (Allport), sublinhando-se assim, que a personalidade é "menos um processo acabado do que um processo progressivo". "Ela possui, sem dúvida alguma, características estáveis, mas encontra-se sujeita a modificações constantes". (Allport).

Tal como se diferencia a personalidade de pessoa também se diferencia esta de carácter. O carácter, apesar de o senso comum o entender de forma diferente por vezes, ou seja, como sendo um acentuar de uma determinada característica ou de um conjunto de características da personalidade, é o carácter antes de mais o que distingue um indivíduo ou uma espécie de outros indivíduos ou de outras espécies. Logo, o carácter é a individualidade pura, ou seja, é aquilo que há de estático e imutável numa pessoa e que por ser diferente diferencia essa de outras pessoas ( ou outras espécies). Como se viu acima (Allport) a personalidade pode sofrer modificações, ou pode ser a " soma total organizada dos padrões reais ou potenciais de comportamentos" ( Eysenck), o sublinhado é nosso. Assim, e contrariamente, o carácter não tem dinâmica própria, é - e será - aquilo que for.

 

2-ESTUDO DA PERSONALIDADE

O objecto do estudo da personalidade é o comportamento individual e o seu fundamento interno. A comparação de indivíduos a respeito das diferenças de características que neles se podem apresentar indica o aspecto inter individual ( Eysenck, Rothacher e Guilford, vistos atrás). E a análise de um indivíduo e das suas características em tempos diferentes ou em situações diversas assinala o aspecto intra-individual do estudo da personalidade ( Murphy e Allport, vistos atrás) .

O Estudo da personalidade ocupa-se dos seguintes campos principais de problemas:

Do problema de classificação, isto é, da questão sobre quais as unidades analíticas da personalidade ( por exemplo, propriedades, atitudes, factores, hábitos, papeis ) que se podem e devem distinguir;

Do problema da integração e da dinâmica, quer dizer, da questão sobre quais os tipos de padrões de relação e de conexões que existem entre as unidades analíticas e em que medida as unidades analíticas ou o sistema individual se encontram sujeitos à constância, ou à mudança;

Do problema da análise condicional, isto é, da questão sobre quais os factores de condicionamento de que dependem as unidades analíticas ou o sistema individual e a maneira como elas se comportam sob a variação condicional metódica ( estudo experimental da personalidade).

 

3-RESUMO HISTÓRICO DO ESTUDO DA PERSONALIDADE

O desenvolvimento histórico do estudo da personalidade partiu da investigação das diferenças individuais e passou através do estudo (experimental) dos tipos até às questões actuais da análise estatística de relação ( análise factorial ) e da análise experimental de dependência ( Brengelmann).

Originariamente a palavra "pessoa" designava a máscara que o actor punha no rosto, passando depois a designar o actor e o seu papel. Com o tempo esta acepção da palavra estendeu-se ao mundo interior do individuo. De pessoa deriva a palavra personalidade como forma assumida pela vida psíquica no homem normal e que pressupõe a individualidade, a consciência e uma função de síntese que estabelece unidade e continuidade na vida mental. Le Senne define a pessoa como um eu consciente que deve ser mais do que simples sujeito e diz que este termo deve ser empregue quando se pretende pôr em evidência que se trata do senhor e não do escravo, isto é, quando se pretende dizer que se não trata do objecto humano, enquanto tal, enquanto ser biofísico, mas sim deste ser quando dotado de consciência e formação individual própria.

A personalidade é, assim, algo que se adquire com a formação enquanto ser humano e consciente. Respeitante à concepção da personalidade a psicologia e a filosofia foram sempre terreno de confrontação entre o materialismo e o idealismo e em cada uma destas correntes entre diversas concepções. O materialismo, fiel à sua própria definição, sustenta que qualquer realidade é de caracter material ou corporal. Logo, a personalidade, para esta corrente psico-filosófica implica uma unidade entre a consciência e a matéria do ser consciente. O idealismo, por seu lado, toma como ponto de partida não o mundo à sua volta, ou as chamadas coisas exteriores, mas o "eu", o "sujeito" ou a "consciência". Para esta corrente psico-filosófica a matéria do ser consciente é de somenos importância daí que o conceito de personalidade evolua mais no sentido desta ser formada pelo conteúdo da consciência, da ideia, sendo o mundo exterior um mero reflexo dessa ideia consciente.

A tendência materialista dividiu-se há muito em duas correntes:

-A primeira assente em posições biológicas empenhou-se em combater os pontos de vista idealistas sobre a personalidade;

-A segunda seguiu a mesma direcção mas baseou-se em posições sociológicas.

A corrente sociológica veio a formar as concepções da personalidade dos fundadores do marxismo e a desenvolver-se desde então dentro da psicologia marxista, sendo apropriada por esta última.

A corrente biológica da luta contra o idealismo contém a ideia de unidade do espiritual e da pessoa cujas raízes mergulham em Platão que está na base da filosofia idealista moderna do personalismo.

Os personalistas a começar pelos fundadores desta escola, os filósofos americanos B. Bowne e J. Royce consideram a personalidade uma substância "supra- individual" cuja neutralidade é manifesta tanto em relação à essência física como à essência psíquica do homem. Na sua opinião a substância da pessoa forma o "nódulo" o qual está rodeado de "esferas" empiricamente reconhecíveis: o temperamento, o carácter, as capacidades, entre outros.

Uma outra tendência do personalismo que remonta à doutrina dos Estóicos gregos relativa à dignidade da pessoa manifesta-se na oposição entre o homem "dotado de personalidade" e o homem "desprovido de personalidade". Assim se explica que, segundo esta corrente do personalismo que temos vindo a referir, se possa encontrar na vida personalidades banais e personalidades brilhantes, personalidades imperfeitas ou harmoniosamente desenvolvidas, doentes ou sãs, isto é, toda a espécie de pessoas. E aquilo a que se chama "falta de personalidade" é igualmente uma característica da personalidade.

É conveniente sublinhar que é entendido como sendo devido a estas opiniões que Nietzsche construiu a sua doutrina do "super-homem", ideias estas que, ainda segundo algumas opiniões, foram retomadas na sua totalidade pelo fascismo e pelo nazismo. Outros autores vão encontrar a teoria do super-homem de Nietzsche noutros planos semelhantes conforme veremos à frente, mas em Adler ( ver à frente ), esta questão é analisada de uma forma diferente, ao ser considerado que o super-homem Nietzscheano não é mais que o individuo que supera a sua inferioridade, embora de uma forma exagerada, o que, segundo este autor, é normal e não constitui, assim, qualquer pulsão de superioridade rácica ou cultural de tendências nazo-fascistas.

A concepção biológica da personalidade vem já do tempo de Hipócrates e da sua escola. Para o célebre médico filósofo todas as doenças "inclusivamente as doenças psíquicas" eram resultado da proporção em que os quatro "humores" (Sangue, a mucosidade, o fel negro e o fel amarelo) que se encontravam misturados no organismo. Os seus adeptos pretenderam ver neste princípio a causa das diferenças psicológicas individuais e a origem dos diferentes temperamentos.

Tempos depois, Kant, avançou uma notação psicológica pormenorizada dos quatro temperamentos base. A definição que fez, entre as noções de temperamento e de carácter, beneficiou, durante largos anos, de uma grande autoridade e a sua definição ainda se mantém como válida. Carácter é, antes de mais o que distingue um indivíduo ou uma espécie de outros indivíduos ou de outras espécies. O temperamento é o conjunto das disposições orgânicas de um indivíduo. Para Kant, a pessoa , e a personalidade são " a liberdade e independência perante o mecanismo da natureza toda, consideradas ao mesmo tempo como a faculdade de um ser submetido a leis próprias, isto é, a leis puras práticas estabelecidas pela sua própria razão".

Ivan Pavlov veio colocar, enfim, numa base experimental e científica, a doutrina dos temperamentos ( disposições orgânicas de um indivíduo ), pondo em relação os temperamentos empiricamente verificados com os diferentes títulos do sistema nervoso.

Recentemente, e dentro da mesma linha de pensamento, os então soviéticos Kovalev e Miassichtchev pensaram poder classificar todas as concepções que têm a ver com o problema da correlação entre temperamento e carácter em quatro grandes grupos:

1-Oposição entre temperamento e carácter;

2-Identificação do temperamento com o carácter;

3-Concepção do temperamento como elemento do carácter;

4-Concepção do temperamento como natureza profunda do carácter.

Pavlov considerava a relação entre temperamento e carácter do ponto de vista da concepção do temperamento como elemento do carácter, uma vez que, declarava, que, "o tipo da actividade nervosa superior representa incontestavelmente as actividades reunidas da segunda camada cortical e do córtex dos grandes hemisférios, uma actividade inata, isto é, um genótipo; aquilo que se ajusta a esta actividade : a prática da vida, as relações humanas na sua acepção mais vasta formará o fenótipo, ou carácter".

A biologização da personalidade exprime-se na sua adequação " directa ou por intermédio do carácter" ao temperamento. Já no Sec. XVII o Jesuíta Graciano declarara que a anatomia do corpo e o carácter se determinavam mutuamente e com muita precisão. A ideia foi retomada pelo psiquiatra alemão Kretschmer que tentou definir os traços da personalidade através das particularidades da constituição física e dos quais falaremos mais detalhadamente no capítulo referente à "Personalidade e Variáveis Organísmicas".

O psiquiatra e criminalista italiano C. Lombroso ( 1835-1909) tentou demonstrar que " o tipo do criminoso hereditário, que a natureza destina a cometer um crime" deve ser detectado preventivamente graças a um certo número de signos corporais, isolado e, se necessário, liquidado. Esta concepção teve grande reflexo na sua época embora hoje em dia possa parecer ridículo que um indivíduo "mau - carácter" ou com deformação da personalidade possa ser detectado por deformações no esqueleto e no crânio, pela assimetria craniofacial, pelo cérebro hipo ou hiper-desenvolvido, pela testa inclinada para trás, pelos malares salientes, pelas sobrancelhas cerradas ou proeminentes, pelo nariz torcido, etc.

A segunda corrente da biologização da personalidade está ligada à doutrina da actividade motivada. Esta doutrina que tem a sua origem em Sigmund Freud ( Ver Capítulo Freud ) o qual explicava os fenómenos da vida psíquica e social dos homens por determinadas propensões biológicas inconscientes sobretudo o instinto sexual " sublimado" que era projectado noutras esferas. O seu discípulo Adler ( Ver Capítulo Adler ) substituía o instinto sexual pela "aspiração ao poder", que considerava um traço biologicamente inerente a cada ser humano. O Freudismo, seja qual for a sua orientação, tem como característica geral uma opção pelas propensões biológicas do homem.

O terceiro ramo da teoria biológica, a chamada psico-biologia, é essencialmente pragmática. Um dicionário médico americano dá uma definição da psico-biologia e da concepção da personalidade que lhe corresponde dizendo que: " a psico-biologia é um método de estudo da personalidade elaborado nos EUA por Adolph Mayer...a personalidade é encarada como uma entidade que evolui numa situação total. É considerada simultaneamente como um organismo psíquico e como um conjunto de reacções ao meio exterior".

Este aspecto da psico-biologia da personalidade de Adolph Mayer levou a que os filósofos e psicólogos marxistas assumissem que o passado biológico da humanidade pode ter algo a ver com a personalidade. A tese do aspecto biologicamente condicionado da personalidade entendida na psico-biologia é contudo incompatível com a tese materialista da consciência, propriedade da matéria altamente organizada que é o cérebro, o qual se desenvolveu primitivamente durante o processo de evolução do mundo animal e, depois, ao longo da história da humanidade. É precisamente em virtude desta última evidência que o lado biológico da consciência e da personalidade humanas encontra no aspecto social o seu acabamento, como a sua transcendência, segundo esta corrente marxista. Assim, a personalidade, o seu conceito, a sua formação, sendo um factor histórico da humanidade não é contudo uma resultante imediata de condicionantes biológicos, o que transporta para o campo socio-cultural as aquisições históricas da personalidade ( da sua formação ).

Paralelamente à teoria biológica tinha vindo a desenvolver-se há muito tempo, a doutrina sociológica da personalidade. Helvetius demonstrava por exemplo que os indivíduos dispõem à nascença de possibilidades intelectuais semelhantes, e que as diferenças de carácter psicológico e moral se formam debaixo da influência do meio em que são educados. Conforme vimos atrás este aspecto da igualdade no nascimento é hoje defendido pela teoria jurídica da personalidade embora a influência do meio seja apenas tomada em parte como condicionante da personalidade.

Diderot mostrou o aspecto progressista destas opiniões. Associou-se com Helvetius no intuito de desenvolver a doutrina do papel decisivo do meio na formação da personalidade. Como todos os filósofos materialistas franceses, via na transformação razoável do meio ambiente a condição principal do desenvolvimento da personalidade. Ao contrário de Helvetius, que negava o papel dos dados naturais, considerava que era indispensável tê-los em conta no processo educativo. Neste domínio as ideias de Diderot continuam a ter seguidores. Allport, Jaspers e Galdston e outros através de uma sociologização da personalidade fazem contudo repousar na identificação da personalidade com o carácter, as suas teorias, que já vêm de Teofrasto.

Dentro desta linha de pensamento, e como já vimos atrás, o aspecto da personalidade que é condicionado pelo meio social é bem mais importante do que aquele outro aspecto que sofre o condicionamento do meio biológico e, ainda que com diferenças noutros planos, a doutrina marxista da personalidade é também essencialmente isto, ou seja, põe o ênfase na questão do meio envolvente como condicionador / libertador da personalidade, rejeitando simultaneamente os dados inatos imediatos embora aceite aqueles que advêm do processo histórico da humanidade.

Roback coloca o carácter no mesmo plano do intelecto, do temperamento e outras qualidades psíquicas e até físicas do homem. Convergindo para a psicometria testológica, a referida doutrina conduziu afinal à ideia do perfil psicológico, incorporando-se, assim, nas tentativas para interpretar a personalidade através de um conjunto de funções sistematizadas, independentes umas das outras, e perfeitamente imutáveis. Esta visão encontra-se naquelas concepções que consideram as capacidades propriedades autónomas da personalidade existindo ao lado de outras propriedades. Com efeito, as capacidades são muitas vezes consideradas como " fechaduras" que encontram no método de estudo procurado as "chaves" correspondentes: cada capacidade tem o seu método, e cada uma delas existe por si. Mas os ecos desta visão funcional do problema ressoam com maior nitidez ainda nas teorias que opõem os processos psíquicos às propriedades da personalidade e na sistematização serial das diversas propriedades tradicionais da personalidade: temperamento, carácter e capacidades, a que se acrescenta algumas vezes a disposição, propriedade esta que também faz parte da fila onde repousam as propriedades autónomas e independentes da personalidade.

Estas são as correntes de estudo da personalidade que consideramos mais significativas, ainda que outras possam eventualmente ser tão importantes em termos históricos e no presente. Contudo foi nosso objectivo retratar tanto quanto possível o panorama passado que conduz ao presente do estudo da personalidade e qualquer alongamento neste plano seria, sem dúvida, excessivo para os nossos objectivos neste capítulo, tanto mais que as ideias aqui expressas se alongam, aliás, pelas restantes páginas deste trabalho.

 

4-MÉTODOS DE ESTUDO DA PERSONALIDADE

O estudo da personalidade utiliza principalmente os seguintes princípios de investigação:

O princípio individualizante ( ideográfico ) tem como objecto o padrão da peculiaridade singular do indivíduo na sua totalidade; "num estudo tipicamente ideográfico investiga-se uma única pessoa ou um número muito reduzido de pessoas relativamente a múltiplas características da personalidade" (Guilford)

O princípio generalizador ( nomotético ) dirige o interesse "para um único traço essencial ou para um número relativamente pequeno de traços afim de estabelecer de que modo cada característica num número comparativamente grande de pessoas varia numa determinada situação ou nalgumas situações" (Guilford); a generalização é possível a respeito do seguinte:

1-O indivíduo como exemplar de um tipo ou como produto de uma carga de factores ( classificação nomotética );

2-O indivíduo como caso de uma lei ou de um princípio de comportamento ( redução nomotética).

Os aspectos individualizantes e generalizador penetram-se mutuamente nos diversos sistemas do estudo da personalidade ( Thomae).

O estudo da personalidade utiliza métodos qualitativos e quantitativos (observação, medição, experimentação ). No campo da análise quantitativa da personalidade, aplicam-se sobretudo a análise de dependência e de interdependência. Por meio da análise de interdependência ( correlação, análise factorial ) , investiga-se a interacção de duas ou mais características (Mittenecker).

 

5-A FORMAÇÃO DA PERSONALIDADE OU PERSONALIZAÇÃO

Dentro de todos os conceitos da personalidade que temos referido até agora, incluindo aqueles que ainda que em termos formais admitem a personalidade como um dado adquirido desde o nascimento como é o caso do conceito jurídico actual, existe, um ponto comum que é a aceitação da variante da personalização. Ou seja, ainda que se determine a existência de personalidade em tempos distintos, todos as correntes estão de acordo em que ela não é um dado estático, ou seja, aceitam que a personalidade se forma, se transforma, se modifica. É nesta perspectiva que inserimos a formação da personalidade, não como uma partida do zero absoluto, mas como uma modificação ( no tempo ou em situações diferentes ) daquilo que é em determinado momento.

Por personalização entende-se aquele factor condicionante da organização e modificação do indivíduo, que se revela especialmente " como autoformação e auto controlo das estruturas impulsivas e como retroacção interpretativa, coordenadora e responsavelmente configuradora do indivíduo sobre os factores sociedade e cultura" ( Wurzbacher). O processo de personalização, ou de formação da personalidade, está em íntima relação com o modelo evolutivo da configuração activa ( Höhn).

Abrange este processo os "modos de conduta da retroacção responsavelmente configuradora, da integração autêntica ou rejeição de normas contraditórias ou regulações despersonalizadoras de comportamento, da modificação criadora ou destruidora activa de relações sociais ou normas sociais". (Scharmann). O esforço pela formação e configuração da própria personalidade, bem como a tendência de actuar de maneira construtiva e transformadora sobre a sociedade e cultura, começa na puberdade; enquanto tarefa, que certamente não é desempenhada por todos os indivíduos, mostra-se eficiente ao longo de toda a vida do adulto.

 

6-A APRENDIZAGEM DA CRIANÇA E A PERSONALIDADE

Lord Chesterfield parece ter afirmado: "Antes de casar, tinha seis teorias sobre a educação dos filhos; agora tenho seis filhos e nenhuma teoria". A despeito desta frustração de Lord Chesterfield, e de muitos outros, continua a procurar-se constantemente o método genuíno de educação das crianças. A história das práticas de educação das crianças é fértil em perspectivas bastante singulares. Theodore Roosevelt insistiu no treino rigoroso e no vigor físico, aconselhou a disciplina e um mínimo de carinhos. John B. Watson (um dos primeiros psicólogos a estabelecer directivas para a formação de crianças) acreditava que estas deveriam tornar-se independentes e para tal recomendou que fossem tratadas como adultos em miniatura - deveriam ser alimentadas segundo um horário rígido e não serem embaladas quando chorassem.

A psicologia freudiana fez surgir o receio de que uma disciplina severa pudesse perturbar o desenvolvimento emotivo da criança, dando origem a um adulto nevrótico. A educação progressista, sublinhando a aprendizagem através da experimentação e a prática num ambiente favorável, opôs-se à aprendizagem excessivamente restritiva, prescrevendo que às crianças deveria dar-se liberdade de exploração. Arnold Gesell, através da observação do comportamento de crianças, minimizou a importância da intervenção dos pais na educação das crianças. Estas dispõem de potencialidades inatas que influenciam a inteligência e a personalidade. O ensino poderia regular estas capacidades mas não eliminá-las. A criança passa através de estádios regulares de desenvolvimento, durante os quais se observam determinados tipos de comportamento que desaparecerão mais tarde.

Benjamim Spock, a partir de Freud, pensava que a inibição sexual e a hostilidade em relação à criança faziam surgir nevroses na vida posterior. Sublinhou a importância de as crianças amarem em vez de temerem os pais. Proclamou flexibilidade na educação das crianças num ambiente familiar de relaxamento. Posteriormente chegou à conclusão de que alguma permissividade por ele preconizada na educação das crianças era entendida como submissão parental e incitou os pais a reconhecerem a necessidade de uma orientação firme. Aceitou também posteriormente que a hostilidade que tinha dito não dever ser inibida o deveria ser, pelo menos regulada, aceitando que o jogo violento podia ser prejudicial.

Investigadores, ao compararem universitários activistas radicais e conservadores encontraram diferenças significativas nas técnicas usadas pelos pais na educação dos filhos ( Block, Haan e Smith, 1968). Os estudantes radicais que protestaram activamente contra os planos e convenções em voga na sociedade americana, os quais ofendiam os seus compromissos éticos, tendiam a ser educados num ambiente familiar permissivo. Os activistas conservadores que aceitavam os valores tradicionais americanos e defendiam um individualismo sem limites tendiam a ser educados por pais rigorosos, que davam grande valor às realizações pessoais e à bondade. Assim, uma análise dos métodos de educação das crianças não pode reduzir-se a um inventário do que pode ou não fazer-se. Tal inventário depende sempre do acordo sobre o que constitui o comportamento desejável e o mesmo sendo encontrado ( se tal for possível ) é necessário que o método proposto obtenha eficácia quer junto das crianças quer junto dos pais e/ ou educadores.

Como resumo, e para finalizar este capítulo, a proposição mais aceitável é que, à medida que a criança se desenvolve, a sua personalidade é moldada por numerosas experiências numa diversidade de situações, em que o diverso da própria criança não é mero espectador passivo, resultando que a sua personalidade é formada por uma acumulação lenta e gradual de experiências e de formas próprias de analisar essas experiências em muitos tipos de situações.

 

7-INTERPRETAÇÕES TEÓRICAS DA PERSONALIDADE

Não existe só uma maneira correcta de investigação da personalidade. Os psicólogos abordaram o assunto de uma de duas maneiras características, reflectindo assim as duas tarefas principais associadas à compreensão da personalidade: uma delas consiste em descobrir como se desenvolve a personalidade; a outra em inventar métodos de medida da mesma. Pode argumentar-se que antes de podermos compreender como se desenvolve a personalidade temos, primeiro, de dispor de métodos de medida das modificações que nela ocorrem. Ao mesmo tempo, antes de podermos medir a personalidade, temos de conhecer algo mais acerca de como se desenvolve e acerca de como ela se modifica com a experiência. Embora estas duas estratégias de investigação da personalidade não precisem e, talvez, não devam ser mutuamente exclusivas, elas foram em geral tratadas como tais.

As tentativas de formulação de teorias do desenvolvimento da personalidade precederam historicamente os esforços de medição da mesma. Contudo, e por uma questão de ordenação da apresentação deste trabalho, já descrevemos de uma forma resumida alguns destes aspectos, ainda que os tenhamos enunciado de uma forma mais sintética e dirigida para a enunciação dos diversos capítulos anteriores, sem a existência dos quais, aliás, dificilmente poderíamos ter iniciado este trabalho. Ao longo deste trabalho já referimos, assim, parte da teoria da personalidade que se pode enquadrar como uma interpretação teórica da personalidade que iremos tratar neste capítulo, incluindo a referência a esforços de medição da mesma. Não se trata, como é evidente, de uma repetição, uma vez que as questões são analisados segundo perspectivas diferentes.

Assim, apresentaremos estes dois aspectos ( teorias do desenvolvimento da personalidade e esforços de medição da personalidade ) por esta mesma ordem: após uma exposição relativa ao seu desenvolvimento e avaliação, analisaremos a sua constância e descreveremos certas variáveis organísmicas que têm efeito sobre a personalidade. Não há que surpreender-se com a descoberta de que foram apresentadas por diferentes psicólogos várias interpretações do modo como a personalidade se desenvolve. Embora seja impossível tomar em consideração todas estas interpretações, tentaremos passar em revista aquelas que consideramos mais significativas.

 

7.1-TEORIA DE FREUD DO DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE

7.1.1-Principios fundamentais do Freudismo

A mais conhecida das ideias de Freud é talvez o ênfase colocado no papel desempenhado nos processos mentais pelo Inconsciente, " a parte submersa e invisível do iceberg" que constitui a camada maior, e em muitos aspectos a mais poderosa da nossa mente. Distingue-se do Subconsciente que, embora actualmente inconsciente, pode ser trazido à luz da consciência. O inconsciente contém as nossas forças instintivas e as nossas vivências recalcadas, devidas em grande parte a experiências traumáticas da primeira infância, algumas das quais podem ter sido vividas conscientemente, enquanto outras se desenrolaram na sombra do inconsciente. Isto significa que, nos nossos pensamentos, emoções e acções, somos comandados por forças em grande parte ocultas, que só podem ser chamadas à consciência quando muito, através de uma técnica especial, a psicanálise.

7.1.2-Estrutura da personalidade em Freud

O quadro freudiano compreensivo da estrutura da personalidade é subdivido em três camadas ou instâncias: O Ego, o Super-Ego e o Id.

No sistema da topografia mental o Id, assim chamado devido à sua natureza impessoal, primitiva e desorganizada, representa o nível mais baixo, o reservatório hereditário de exigências instintivas e drásticas, ilógico e imoral, apenas submetido ao princípio do prazer, procurando a satisfação imediata daquelas exigências e situado na linha de fronteira entre o somático e o psíquico, fornecendo tanto ao Ego como ao Super-Ego as energias com que eles operam. É permanentemente inconsciente.

O Ego é a parte fundamentalmente consciente da personalidade humana, embora tendo também uma parte, mais profunda, inconsciente. Não existe ainda na primeira infância. A criança não possui, a princípio, qualquer personalidade consciente, já que a consciência de si mesma se desenvolve de forma lenta. O Ego torna-se progressivamente mais forte, passando a modificar e controlar, pelo menos até certa medida, as forças instintivas e anti-sociais do Id. Embora não se distinguindo nitidamente do Id, o Ego procura ser normal e conformar-se com as exigências do mundo exterior e o princípio da realidade, que se supõe governar depois a pessoa adulta, amadurecida.

O Super-Ego corresponde essencialmente à ideia tradicional de consciência. Também ele é, em grande parte, uma instância inconsciente. A consciência consciente não representa o regulador principal do comportamento moral e ético. A moralidade e o comportamento social dependem fundamentalmente da actuação invisível de códigos inconscientes que foram incutidos durante o processo de educação. O Super-Ego tem , de acordo com a doutrina Freudiana, várias origens. Normalmente distinguem-se quatro tendo como ponto de partida que a base do Super-Ego é a interiorização da autoridade do pai ou do seu substituto, num complexo sistema de interacções e reacções que envolvem as outras instâncias da estrutura da personalidade, envolvendo processos de dupla agressividade- agressividade do pai e agressividade contra o pai-, ataques contra e vindos das outras duas instâncias da personalidade ( o Id e o Ego ), com resultados como o sentimento de culpa, a auto-censura, a sublimação e por último a reacção formação que em geral é dirigida contra formas infantis, pré-genitais de amor e ódio. Desenvolve-se esta fase a partir da idade de dois anos e constitui alguns dos traços mais permanentes e reconhecíveis do carácter normal e, quando são excessivos, apresentam um conjunto de traços caracterológicos patológicos. A excessiva escrupulosidade, por exemplo, é uma resposta típica de carácter obsessivo, segundo Freud. O pudor exagerado, como defesa contra os instintos sexuais, e a rigidez exagerada como defesa contra a timidez e os sentimentos de inferioridade são alguns dos exemplo clássicos da reacção-formação.

7.1.3-Os instintos

Os instintos fundamentais que dominam a personalidade são o de auto preservação e procriação, posteriormente substituídos por Freud pelos instintos da vida e da morte, Eros e Thanatos.

Enquanto o primeiro (Eros) não requer qualquer explicação, já o segundo, que corresponde aos conceitos freudianos de libido e sexo, tem sido objecto de muitas hesitações e mal-entendidos. Embora Freud nunca tenha sustentado que o sexo era o único instinto que interessava, a sua compreensão excessivamente ampla do termo, que não se restringia aos órgãos genitais, tinha de levar a confusões e deturpações.

Recordemos apenas, a propósito, o grande ênfase concedido pelos psicanalistas ao instinto sexual como dominando a vida humana desde a primeira infância, bem como a doutrina de que a sexualidade infantil consta de três componentes ou zonas que, embora coexistindo desde o princípio, exercem o seu primado durante fases diferentes e sucessivas do desenvolvimento da criança: o primeiro, a fase oral ou de sucção; a fase anal e por último a fase genital ou fálica. Há entre eles grandes áreas de sobreposição, contudo, falando genericamente, cada uma delas tem o seu período próprio e o modo como a criança os ultrapassa, com ou sem dificuldade, influencia profundamente o seu comportamento de adulto, ou seja, a sua personalidade. Se, por exemplo, o indivíduo experimenta grande satisfação ou frustração em qualquer dos estádios, ele regressará ao ponto de satisfação ou de frustração. Se este estádio aconteceu durante a sua infância, uma vez atingida a maturidade adulta, pode o indivíduo regressar às impressões sexuais da sua infância chamando-se a este facto fixação.

Outro conceito de relevo é o de identificação, que pode ser "boa" ou "má", consoante os respectivos objectos. Se o rapaz sublima os seus sentimentos de ódio para com o pai, tentando identificar-se a ele e aceitá-lo como modelo, ou se se identifica com a mãe e tenta condescender com os seus desejos razoáveis, isto levará a um desenvolvimento positivo.

7.1.4-Os complexos

O Complexo de Édipo: Este complexo- cujo nome remonta ao rei de Tebas, da Tragédia de Sófocles, que matou o pai e casou com a mãe sem os identificar como tais- desenvolve-se, segundo Freud, no período fálico ou genital, cerca dos três anos de idade e consiste no desejo de ter relações sexuais com o progenitor do sexo oposto, acompanhado de ódio e rebelião contra o progenitor do mesmo sexo. A resolução deste complexo, segundo Freud, faz-se por identificação e sublimação mas também pela substituição por um outro complexo, o de castração.

O Complexo de Electra: Este nome também deriva da tragédia grega: Electra ajudou a matar a mãe Clitemnestra que, por seu turno, tinha assassinado o marido Agamemnon ( pai de Electra) e, de certa forma é o reverso do complexo de Édipo.

7.1.5-Outros conceitos Freudianos

A ambivalência: A ambivalência tem lugar quando os sentimentos de amor e ódio aos pais e outras pessoas, existentes na criança, alternam com tanta frequência que dão origem a uma atitude de permanente mistura de sentimentos antagónicos simultâneos em relação ao mesmo objecto, isto é, a uma ambivalência.

O deslocamento: Deslocamento, estreitamente relacionado com a ideia de transferência e simbolismo ( ver à frente ) significa a mudança inconsciente de um interesse de um objecto anterior e mais primitivo para um substituto posterior. Pode representar um processo de socialização, mas pode também ter o sentido inverso, como sucede, por exemplo, quando a hostilidade é transferida de objectos infantis para pessoas ou instituições actuais.

O simbolismo: O simbolismo é um sistema de pensamento primitivo em que uma ideia se substitui a outra, inconsciente. Os símbolos representam sobretudo as relações de amor e ódio da criança para com os pais e consistem em objectos de algum modo relacionados com os órgãos genitais, como um punhal ou faca e uma serpente, representando o sexo masculino, ou uma casa ou saco, representando os genitais femininos. Dinheiro e doces são símbolos de amor. Um objecto ou pessoa aparece em vez de outro objecto ou pessoa, que têm de ser excluídos da zona consciente da mente. O símbolo é um dos meios através dos quais os desejos proibidos do Id inconsciente são autorizados a manifestar-se de forma larvada na consciência.

A projecção: A projecção é um processo inconsciente que permite ao indivíduo identificar o prazer com ele próprio e o sofrimento com o não-eu. Noutros termos, a criança, como aliás o adulto, projectam as suas experiências dolorosas e os desejos agressivos noutras pessoas, convertendo-as em demónios com espíritos maus, processo de que podem resultar fobias, isto é, medos mórbidos de objectos, pessoas ou situações.

 

7.2-JUNG , Carl Gustav

O seu sistema de psicologia analítica ocupa um lugar de relevo e sobretudo a sua teoria dos tipos psicológicos e os seus conceitos de introvertido e extrovertido. Mesmo depois da dissidência com Freud as teses de Jung conservaram muitos pontos de convergência com aquele, mas os pontos de discórdia são igualmente numerosos e relevantes. Jung criticou o que considerava ser o exagerado peso que Freud dava ao instinto sexual, por exemplo. A sua teoria de que há um contínuo entre a extroversão e a introversão, ao longo do qual é possível localizar todos os seres humanos, constitui um ponto de partida para um conjunto de investigações sobre a base psicológica da repetição ou reincidência. Além disso, o contínuo introversão-extroversão é uma das dimensões básicas da personalidade, segundo Jung.

7.3-ADLER, Alfred

Outro dos discípulos de Freud que posteriormente se veio a afastar dele notabilizou-se como fundador da escola de psicologia individual e como criador da ideia do complexo de inferioridade. Enquanto o sistema de Freud assentava fundamentalmente na ideia de sexo ( no seu sentido mais amplo ), o sistema de Adler apoia-se na vontade de poder, o sentimento originário de inferioridade e a consequente luta pela superioridade, o que já levou alguns autores a compará-lo à filosofia do poder de Friedrich Nietzsche, com o qual se considera contudo ter poucos pontos em comum. Enquanto que Nietzsche se mostrou sobretudo atraído pelo poder do super-homem, Adler, pelo contrário privilegiou a fraqueza humana comum.

Quando o homem ganha consciência da sua fragilidade, tenta obter compensações. As tentativas de compensação levam frequentemente a sobrecompensações, isto é, a excessos no sentido oposto àquele em que a inferioridade é mais evidente. O gago Demóstenes, por exemplo, acabou por se tornar um notável orador à custa de se dedicar com toda a determinação à superação da sua gaguez. A lei da compensação foi há muito reconhecida na natureza e está intimamente ligada ao conceito freudiano de sublimação.

O complexo de inferioridade, segundo o conceito de Adler, tornou-se um dos modelos mais úteis para a interpretação do comportamento humano devido, sobretudo, à circunstância de ser um complexo que pode atribuir-se praticamente a todas as pessoas. A ideia de inferioridade é de natureza relativa, já que haverá sempre na vida de qualquer indivíduo aspectos em que ele é- ou pelo menos se representa como tal- inferior aos outros: seja a idade, o sexo, a força física, a inteligência, a raça, a classe social ou a educação. As sequelas da inferioridade serão naturalmente menos drásticas se esta for comum a muitas outras pessoas, do que se for característica de um pequeno grupo ou se for assumida por uma só pessoa integrada num grupo que considera ser-lhe superior.

Adler procura ver o lado racional dos fenómenos psicológicos, não tentando alcançar nada para além das determinações racionais e motivadas do comportamento humano enquanto que Freud dá um relevo considerado exagerado aos aspectos irracionais.

 

7.4-UMA INTERPRETAÇÃO HUMANISTA DA PERSONALIDADE

Enquanto a psicanálise e a teoria da aprendizagem sublinham o passado e o conflito na formação da personalidade, as interpretações humanistas põem em relevo o futuro e a realização pessoal. Segundo as primeiras perspectivas, a personalidade desenvolve-se a partir de uma sequência de experiências em que o indivíduo é sujeito a forças conflituais: por exemplo, o conflito entre o ego de um lado e o id e o super-ego do outro, na psicologia freudiana; a competição entre reacções agressivas e de sujeição na teoria da aprendizagem.

Segundo os psicólogos humanistas, a melhor saída para tais conflitos é um compromisso razoável entre as várias forças opostas. Se se conseguir estabelecer um equilíbrio razoável entre as tendências competitivas, então a pessoa pode efectivamente dominar os problemas da vida. Caso contrário irá deparar-se com dificuldades psicológicas. Os psicólogos humanistas consideram incompleta e vazia tal concepção de vida. O futuro é mais importante que o passado, porque aquilo em que a pessoa está a tornar-se determinará o que ela é. Portanto, para compreender as pessoas, devem compreender-se os objectivos pelos quais se empenha.

Segundo Maslow, o desenvolvimento da personalidade é análogo ao subir de uma escada, em que os sucessivos degraus representam diversas necessidades básicas. Embora relativamente poucos atinjam o degrau de cima, o da auto-realização, todo o ser humano tem dentro de si um impulso orientado para a auto-realização e a capacidade para a atingir. Certos indivíduos ficarão imobilizados no degrau inferior por toda a vida em razão da contínua luta para satisfazer as necessidades fisiológicas fundamentais. Outros, os que vivem numa sociedade opressiva, subirão até ao segundo degrau mas possivelmente não avançarão mais por causa da necessidade constante de manter a segurança. O degrau do amor e da pertinência pode constituir o nível final para os que permanecem insatisfeitos com a procura do amor e do sentido da pertinência. O seguinte é o degrau da Auto-estima, que deve ser alcançado antes de ser possível a subida ao nível mais alto, a auto-realização. Mas, como acontece muitas vezes nas sociedades opulentas, as pessoas procuram constantemente a posse de coisas materiais e outros sinais de prestígio para reforçar a Auto-estima e nunca atingem a auto-realização.

Ao alcançar o último nível da auto-realização, a pessoa torna-se verdadeiramente ela própria (Maslow, 1961), atinge momentaneamente "experiências de cume" em que a sua personalidade é completamente integrada e constitui um todo com o mundo. A pessoa que vive tal experiência está no auge das suas forças, livre de inibições, franca, vivendo só no presente, emancipada de pensamentos do passado e do futuro. Embora o ambiente das pessoas influencie a determinação do nível motivacional a que ascenderão, a psicologia humanista acentua o poder dos seres humanos para se erguerem acima das circunstâncias. Frankl (Viktor ) é um psicólogo existencialista que segue uma forma de psicologia humanista que acentua a descoberta do sentido e da responsabilidade na existência de cada um. O método de Frankl não consiste numa exortação moral nem numa persuasão a adoptar um determinado sentido de vida. O seu objectivo é, de preferência, alargar a percepção de cada pessoa de tal modo que possa olhar a vida numa perspectiva correcta. A sua tarefa é semelhante à do oftalmologista que proporciona aos doentes uma percepção clara do mundo que substitua a que era destorcida. para se olhar a vida correctamente, exige-se que cada um descubra para a sua vida um sentido e aceite a responsabilidade da escolha.

 

7.5-PERSONALIDADE E VARIÁVEIS ORGANÍSMICAS

O facto de a aprendizagem ter grande importância na formação da personalidade pode, ás vezes, levar-nos a fechar os olhos à influência das variáveis organísmicas. Tal cegueira conduz a conclusões muito unilaterais. Todo o tipo de comportamento tem uma base fisiológica. Isto é tão verdade quanto aos traços de personalidade como quanto à sensação.

7.5.1-Físico e personalidade

A ideia de que a personalidade varia com o físico tem sido acalentada ao longo dos séculos. Por exemplo, Júlio César exprime uma atitude acerca da relação entre o físico e a personalidade da seguinte forma, num drama de Shakespeare:

" Deixai que eu tenha homens gordos à minha volta;

Homens com cabelo liso e que durmam de noite;

Aquele Cássio tem um aspecto magro e esfomeado;

Pensa demasiado: tais homens são perigosos."

William Sheldon juntamente com Stevens e Tucker em 1940 dividiram o físico humano em três dimensões:

endomorfia ( de endoderme, camada interior de células da qual se originam os aparelhos digestivo e respiratório);

mesomorfia ( de mesoderme, camada interior de células da qual se formam os músculos e o esqueleto) e,

ectomorfia ( de ectoderme, a camada exterior, que contém as células da pele e do sistema nervoso).

Segundo Sheldon, os físicos podem distinguir-se pelo grau de desenvolvimento ( que vai de 1 a 7 ) nestas três dimensões. Uma pessoa muito gorda receberia uma cotação 7 em endomorfia, um atarracado e excessivamente musculoso teria o mesmo tratamento no que se refere à mesomorfia, e um magro receberia uma boa cotação em ectomorfia ( dependendo do seu grau de magreza ). Um indivíduo é considerado médio quando adquire 4 em cada um dos itens. Cotando separadamente estas três dimensões pode exprimir-se quantitativamente um somatótipo ( estrutura física) do indivíduo.

Com base nestes princípios Sheldon tentou associar as diversas variáveis de forma a poder atribuir-lhes aspectos da personalidade que definiu como temperamentos, ou seja, aquela parte da personalidade da qual faz parte o humor e o nível geral de actividade. Assim, o temperamento ( e não a personalidade de uma forma directa, note-se ) pode dividir-se a adaptar-se a indivíduos medidos segundo os critérios antes referidos em:

Viscerotonia: que se refere ao desejo das chamadas comodidades viscerais ( relaxamento, alimentação, sociabilidade). Sheldon verificou que os estudantes altamente cotados neste temperamento tinham na sua maioria estruturas físicas com alto grau de endomorfia;

Somatotonia: que é caracterizada pela actividade, agressividade e combatividade. Sheldon verificou que o mesmo sucedia com os endomorfos neste caso;

Cerebrotonia: que é caracterizada pela dominância dos processos cerebrais: sensibilidade, coibição, gosto do isolamento e preocupações pessoais. Sheldon verificou o mesmo em relação a este temperamento no que se refere à sua relação com os ectomorfos.

Mesmo se se aceita a conclusão de que há uma correlação entre o físico e a personalidade, deve ser-se prudente na sua interpretação. Uma correlação entre duas variáveis não indica, por si mesma, que exista relação causal entre elas, ou seja, que uma implique a outra de uma forma necessária.

Contudo a tentativa de relacionar a personalidade com o físico representa, para a Psicologia, um caso científico interessante. A questão fundamental da correlação entre físico e personalidade foi posta de modo bastante grosseiro. Para compreender a base biológica da personalidade devem pôr-se outros problemas mais analíticos, e outros filosóficos, o que no primeiro caso tem sido feito pela psicogenética, ou seja, pelo estudo das influências genéticas sobre o comportamento e que no segundo caso tem sido objecto de um debate pelo menos bi-milenar sobre a chamada confusão entre as leis da física e as leis humanas ou seja, as leis que regem e formam os homens, feitas pelos homens.

 

8-CONCLUSÃO

Este trabalho sobre a personalidade, tal como foi dito desde o início, é e será sempre um trabalho incompleto porque incompletas estão constantemente as diversas teorias e formas de encarar a personalidade como factor dependente da diversidade humana que é.

A humanidade, em processo de constante evolução, sujeita a alterações continuadas no aspecto social, económico, político e em todos os aspectos que se relacionam com a chamada natureza humana, dificilmente conseguirá dominar como ciência exacta a teoria da personalidade. Quando muito poderá convencionar, tal como vimos ao longo deste trabalho, diversas formas de avaliação, medição, análise e ensino de formação da personalidade, mas, sendo estas formas exactas ou tão exactas quanto possível, são-no para si mesmas e dentro delas mesmas.

Ao longo deste trabalho o resumo que melhor penso poder utilizar para concluir é aquele que nos é fornecido por Lord Chesterfield conforme vimos no capítulo "Aprendizagem da criança e personalidade": Antes de casar, tinha seis teorias sobre a educação dos filhos; agora tenho seis filhos e nenhuma teoria. Não faço integralmente minhas as palavras deste autor inglês mas sirvo-me delas indirectamente para rematar o meu trabalho: "antes de começar este trabalho tinha várias teorias sobre a personalidade que conhecia brevemente; agora, e deste conjunto referido até agora, tenho apenas uma teoria sobre a personalidade que as inclui a todas".

Acrescento, assim, que em todas elas encontrei pontos de interesse, que não são certamente verdades absolutas, mas que parcelarmente utilizadas, e doseadas de forma conveniente, podem, para mim, vir a constituir aquela teoria da personalidade, que não sendo integralmente minha porque parte de vários autores, é contudo aquela que eu prefiro.

 

9-BIBLIOGRAFIA

Abrunhosa, Maria Antónia e Leitão, Manuel, Introdução à Psicologia, Edições Asa, 270 pagªs.

Cordon, Juan Manuel Navarro e Martinez, Tomas Calvo, História da Filosofia, III Volumes, Edições 70, 600 pagªs.

Dietrich, Georg e Walter, Hellmuth, Vocabulário Fundamental de Psicologia, Edições 70, 290 pagªs.

Dorokhva, E.; O Trabalho e a Personalidade, Livraria Bertrand, 300 pagªs.

Kendler, H., Introdução à Psicologia, II Volumes, Fundação Calouste Gulbenkian, 1420 pagªs.

Mannheim, Hermann, Criminologia Comparada, II Volumes, Fundação Calouste Gulbenkian, 1150 pagªs.

Pinto, Carlos Alberto da Mota, Teoria Geral do Direito Civil, Coimbra Editora - Ldª, 630 pagªs.

 

Trabalho realizado por Patrícia 003

 

voltar ao topo da página

voltar à página inicial de psicologia

 

 

 

 

 


UK Web Hosting

Desde 25 de Outubro 2003 e quando o contador Bravenet apresentava cerca de 72.500 visitas